Notícias

Tribunal pode incluir abuso do poder religioso nas causas de cassação de mandato

quinta-feira, 16 de julho de 2020
Postado por Gabriela Rollemberg Advocacia

Fonte: Época

Cena comum de campanha é o candidato procurar líderes religiosos para pedir apoio político. Esse costume resultou na eleição de uma numerosa bancada evangélica no Congresso Nacional. As prefeituras também são reflexo da prática. No Rio de Janeiro, Marcelo Crivella foi eleito com o apoio maciço da Igreja Universal do Reino de Deus, de onde é bispo licenciado. Para as campanhas deste ano, o TSE quer traçar um limite na atuação de religiosos. A ideia é punir com cassação quem abusar da fé alheia em campanha.

Dos sete ministros da Corte, ao menos três defendem que o abuso do poder religioso seja motivo para cassar candidatos. O crime não está tipificado em lei nesses termos. Mas ministros alertam para a proibição de proselitismo político no interior de templos de qualquer culto, conforme expresso na Lei das Eleições. Para esses ministros, a exploração política da fé religiosa seria vedada também por analogia à vedação da captação ilícita de votos, prevista no Código Eleitoral.

O julgamento da tese começou no TSE no fim de junho e deve ser concluído em agosto, quando terminar o recesso da Corte. O ministro Edson Fachin apresentou proposta para que, a partir das eleições deste ano, seja possível incluir a investigação do abuso de poder de autoridade religiosa nas ações de cassação. Em caráter reservado, dois ministros revelaram à coluna que concordam com a tese. Um terceiro ministro ponderou que a cassação por abuso de poder religioso só seria possível se o motivo fosse combinado com algum crime previsto expressamente em lei.

O caso que abriu a discussão é o da pastora Valdirene Tavares, que se reuniu com outros pastores em um templo da Assembleia de Deus para pedir votos. Ela foi candidata a vereadora de Luziânia em 2016, município goiano no entorno de Brasília. O pai, Sebastião Tavares, também era pastor e dirigente da igreja na cidade. Coube a ele convocar para o encontro colegas de outras filiais. O apoio da igreja foi decisivo para a vitória de Valdirene nas urnas.

Para o Ministério Público Eleitoral, Valdirene usou sua condição de autoridade religiosa para influenciar a escolha dos eleitores e intervir no direito constitucional da liberdade de voto. Fachin considerou que, no caso específico, não havia motivo para a cassação do mandato. Mas apresentou proposta pela possibilidade de investigar e cassar políticos por abuso do poder religioso.

Alexandre de Moraes votou contra a proposta. Em seguida, Tarcísio Vieira de Carvalho pediu vista e interrompeu o julgamento. Ele prometeu aos colegas devolver o processo ao plenário em agosto.

No julgamento, Fachin lembrou que a Justiça Eleitoral deve proteger a legitimidade do voto e impedir que qualquer força política possa coagir moral ou espiritualmente os cidadãos. Alexandre de Moras discordou: “Não se pode transformar religiões em movimentos absolutamente neutros sem participação política e sem legítimos interesses políticos”. Para ele, se houvesse abuso do poder religioso, seria necessário reconhecer também o abuso dos poderes sindical, empresarial e corporativo.

Em agosto, o mais provável é que Valdirene não tenha o mandato cassado. Por outro lado, o TSE deve deixar claro que para tudo tem limite - inclusive para a mistura perigosa entre política e religião.

 

Categoria(s): 
,
Tag(s):
, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

#GRAinforma

Notícias relacionados

qui, 26 de setembro de 2013

A Minirreforma Eleitoral do Senado

O Projeto de Lei n. 441 do Senado, intitulado Minirreforma Eleitoral, foi aprovado recentemente e tem por objetivo estabelecer normas […]
Ler mais...
ter, 28 de julho de 2015

Tribunal Regional Eleitoral/PI institui comissão para planejar eleições 2016

O Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI) publicou portaria instituindo uma comissão gestora para planejar as eleições 2016. O objetivo, […]
Ler mais...
ter, 28 de agosto de 2018

Candidaturas femininas e o uso de recursos para a formação política da mulher

Por Karina Kufa Em 17 de setembro de 2015, o Supremo Tribunal Federal julgou a ADI 4.650 para declarar inconstitucional o […]
Ler mais...
qui, 22 de junho de 2017

TRE declara ex-governador Sandoval Cardoso inelegível por 8 anos; cabe recurso

ex-governador do Tocantins Sandoval Cardoso Lobo (SD) deve ficar inelegível por oito anos. Ele foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral […]
Ler mais...
cross linkedin facebook pinterest youtube rss twitter instagram facebook-blank rss-blank linkedin-blank pinterest youtube twitter instagram